Os humanos são seres bem contraditórios, gritam por liberdade mas vivem presos, "ganham" a vida gastando-a em horas e horas no trabalho, clamam por amor mas o ignora quando o recebem e tentam a qualquer custo se encaixar em uma sociedade que insistem em julgar. As leis são dos homens, as regras, o estilo de vida, as etiquetas, todas elas são lei dos homens, ainda assim se não segui-las você será taxado de anti-social, inapropriado e até mesmo louco. As pessoas passam toda uma vida querendo se encaixar, colocando suas mascaras e saindo aos rissos em publico para se mostrarem normais porque, segundo eles, esse é o comportamento normal, seria loucura não ser como eles. Vejo o mesmo rosto, mesmas vozes e os mesmos gostos por onde quer que eu ande e isso é tão entediante.
Meu vizinho, Gabriel, é diferente, nunca conseguiu se encaixar, acho que nem tenta na verdade. Sua história é bem trágica. Foi adotado quando criança, tinha uma nova família que o amava e não conseguia demonstrar o mesmo, tinha dinheiro mas não gastava, acho que nem se divertia. Ele passa boa parte da noite observando as estrelas e uma vez o vi querendo alcança-las com sua mão. Quando adolescente sofreu um horrível acidente de carro onde perdeu a mãe adotiva. Quando o vi no hospital, o achei tão diferente das pessoas comuns, uma espécie de luz o cercava, seu rosto sempre fora de tranquilidade. Mesmo depois de saber da morte de sua mãe. Me senti intrigada com sua expressão, o modo que ignorava as coisas que não lhe importava, a simplicidade de seus atos e ainda assim não indiferente com seus parentes. Um sujeito deveras intrigante. Levei leite e pão e me sentei ao seu lado, no seu leito de hospital naquela ocasião. Sua expressão não foi de espanto, ele apenas me agradeceu e sorriu. Me pegou de jeito, eu que adorava testar a reação dessas pessoas me peguei sem reação alguma.
Passamos a nos conhecer mais, ele ria das minhas roupas e eu ria dos machucados que fazia nele por ter rido de minhas roubas. Pescamos e descobrimos que não sabemos pescar, dançamos e ainda assim não somos bons nisso. Gosto de colecionar fotos, imagens, rostos, lugares, o comportamento dessas pessoas e quando o levei para meu quarto e ele viu todas aquelas fotos nas paredes achou fascinante. Eu o acho fascinante. E o que ele viu de diferente em mim o atraiu também. Mas nem tudo é flores. Eu posso observa-lo sempre que quiser e ele não percebe. Sei de alguns de seus segredos.
Percebi que não tinha nenhum machucado sério quando nos conhecemos no hospital, ele nunca se fere, nunca sente dor, tem dificuldade em entender afeições, e o mais assustador foi numa noite de chuva quando ele encurralou um homem no beco. Não sei quem era ou do que se tratava, mas, esse homem lhe deu cinco tiros a queima roupa e nada aconteceu, Gabriel continuou andando em sua direção e quando terminou o homem de aproximadamente trinta anos estava morto, e parecia ter o dobro da sua idade. Ele possui tatuagens assustadoras pelo corpo, um anjo, um velho, uma lula, um rei, uma estátua de ouro, uma mulher com cabeça de cabra e a cabeça de um bode vedado. Não sei o que isso significa mas suspeito o que ele possa ser.
As pessoas tentam mais que tudo se conectar, para não se sentirem excluídas, ou sozinhas. A solidão é o pior castigo que se possa ter. Por isso as mascaras, por isso tentam a todo custo se encaixar. Até mesmo eu busquei em Gabriel uma conexão e isso só deu certo porque somos diferentes. Diferente como eu, somos dois desconhecidos numa terra hostil. Dois aliens que não se encaixam. Que caixinha de surpresa é essa vida que tanto falam. Quando o vejo querendo alcançar as estrelas eu sei que se sente como se esse não fosse o seu lugar. Ele está certo. Não somos parecidos mas também não sou daqui, fui enviada para busca-lo, leva-lo para seu lugar. Isso me deixa triste porque antes quero vê-lo alcançar as estrelas.

Fiquei com vontade de conhecer esse Gabriel rsrs
ResponderExcluirQue personagem peculiar.
Ah valeu
ExcluirMeus contos mostram o dia-a-dia de pessoas diferentes, por algum motivo, e com certeza esse não será o único conto que postarei do Gabriel.
Obrigado por acompanhar man
:D