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domingo, 18 de agosto de 2013

O céu com estrelas de sangue

    Dizem que antes de você morrer toda sua vida passa diante de seus olhos. Eu nem pisquei. Sangue e lágrimas se misturavam e manchavam meu vestido claro, eu via o rapaz sendo dilacerado na minha frente mas todo o meu corpo ficara rígido naquele momento, imóvel, adormecido, senti que cairia de joelhos na frente da criatura como se fosse o prato principal, uma suculenta e apetitosa carne vermelha para saída, "Embrulhada pra viagem?".
    Pouco a pouco a criatura se alimentava com a maior ferocidade que eu nunca tinha visto em minha vida, partes do pobre rapaz eram atiradas por toda a parte enquanto jatos de sangue espirravam e marcavam todo o banheiro, as pias, os mictórios, o espelho e o azulejo azul celeste se tornaram um verdadeiro céu de estrelas de sangue. Eu sabia que era a próxima, sabia que o pobre rapaz era apenas a entrada naquele menu, mas ainda assim nem minhas pálpebras piscaram. Nem um único músculo se moveu e eu percebi que não passava de uma garotinha assustada.
    O relógio dos meus pensamentos começou a correr ao contrário. Eu vi meu pai me pegando no colo e me levando para escola, minha lancheira cor de rosa e minha mochila de rodinhas. Aquele seu óculos quadrados, seu beijo e o toque da sua barba na minha testa. Como eu era pequena naquela época. Eu senti o cheiro de torradas vindo da cozinha no domingo de manhã no meu decimo aniversário, o sorriso largo da minha mãe e seus longos brincos dourados. Eu senti em meus lábios o meu primeiro beijo no portão da minha casa naquela noite, a lua sorria, o clima era ótimo e o momento perfeito. Eu ouvi quando o carro dele se aproximava enquanto eu estudava para as provas do último ano na escola, sua blusa branca, cabelos loiros encaracolados, olhos azuis e sorriso bobo. Porque não consigo tirar a música A Thing About You da minha cabeça?
    Ângelo me ensinou como usar a dádiva que me foi concedida. Um toque celeste. O poder de tomar minhas próprias decisões. Poder proteger meus pais e enfim dar em troca todo o amor que eles me concederam em todos esses anos. Minhas preces e orações enfim tinham sido atendidas. O céu e o inferno fizeram sentido então. Me senti tão forte ao seu lado, tão capaz, me senti invencível. Ele me ensinou sobre tantas coisas e quando eu o olhava e via seus lábios se mexerem, mesmo não ouvindo som algum que ele pronunciava aquilo era música para os meus ouvidos. Ele me ensinou a ama-lo também, sem saber. Eu jurava estar preparada, jurava poder fazer algo, jurava poder vencer.
   Aqui estou eu agora. "Grande aluna, não Ângelo?". A criatura olhou pra mim guardando apenas o coração do rapaz e eu me lembrei em como ela era apenas a menina esquisita da classe. Não sobrara muita coisa da entrada e a sua gula não estava saciada. A cada passo que ela dava em minha direção meu coração acelerava, o pavor tomou conta da minha alma. Eu não conseguiria proteger ninguém, não iria  fazer diferença alguma, não venceria. Ela sairia e atacaria todos lá fora. Seriam sorrisos rasgados e diplomas ensanguentados. Seria tudo minha culpa. Morreria pensando em todos que não pude salvar. Ela entortou a cabeça lentamente para o lado, como um boneco de corda. Apreciando meu medo, degustando meu pânico. Ela sabia que eu era uma tocada também, por isso veio lentamente. Desculpe mamãe, desculpe papai e desculpe Ângelo. Eu ainda sou apenas a garotinha da lancheira cor de rosa. Ela pulou em minha direção. Fechei meus olhos por um instante.
   Aqueles seus dentes grandes e pontiagudos, os ossos enormes sobre a fina camada de pele, e meu grito. Eu quase cheguei a sentir seus dentes rasgando minha pele. Porém antes que ela conseguisse encostar em mim ele surgiu como um relâmpago, rápido, ágil e certeiro. Todo o seu braço era sua espada. E no fim o que veio em minha direção era apenas a cabeça da criatura enquanto seu corpo, pelo impacto, fora jogado na direção oposta. Ângelo, meu cavalheiro branco. Até quando você vai me salvar? Até quando serei a inútil e pequena Jennifer? Droga. A Thing About You de novo na minha mente! Ele me levou aos seus braços e eu tive que engolir meu choro para não parecer tão patética. Mas então ele me disse, "Parabéns". O anjo que o tocou sabia o que fazia. E quer saber? Pelo menos por hoje eu não me importaria em ser a princesa indefesa salva pelo príncipe encantado. Eu ainda farei a diferença, um dia serei a que ajuda, a que protege, a que salva e a amada.

5 comentários:

  1. É impressionante a riqueza de detalhes dos seus contos.
    Sou seu fã manin!

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    1. Muito obrigado, farei sempre o melhor possível
      Valeu por seguir

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  2. Muito bom.Como sempre tudo em seus mínimos detalhes assim como foi em SETE,ela e seu pensamento que nunca poderia ajudar alguém,mais no fim das contas ela sempre foi importante apesar de sempre pensar que nunca ajudava ninguém ela foi crucial em SETE,Parabéns Master.

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    1. Obrigado cara, que bom que gostou!
      Em breve mais contos da Pequena Jennifer e do Jordan!

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  3. Detalhes.....
    realmente eles fazem a diferença....
    nossa detalha muito bem, o texto fica rico demais.
    Olha parabéns.
    Não perdi meu tempo comentando aqui não...
    agora precisa lê os meus.

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