A noite é uma criança e se você não tomar cuidado vai se tornar apenas mais um brinquedo quebrado em suas mãos. As pessoas buscam abraços, sorrisos, diversão, drinkes, sexo. Buscam fugir da realidade e se libertar da prisão do dia-a-dia, e quase sempre elas conseguem, as vezes elas também conseguem mais, bem mais que isso e aposto que se arrependem disso. Meu nome é Henrique Hiato, sim esse sobrenome existe. As pessoas inundam a noite tão excitadas e cheias de vontade que se esquecem que abaixo de seus narizes a cidade respira, vigia e se move
Ellen é uma mulher que sabe o que quer, quando ela sai a noite ela sabe exatamente o que busca, uma presa, alguém para poder brincar, dançar, se embriagar, seduzir e descartar. Arthur foi em direção ao olhar de Ellen se achando o caçador, mal sabe que hoje é o dia da caça. Ele passa sua mão pelas costas nuas dela, trocam sorrisos, olhares e caricias e depois da terceira bebida já se tratavam como conhecidos. Eu odeio essas luzes de boate, se não fosse meu uísque não aguentaria ficar por mais tempo, o segurança me olhou de um jeito suspeito, isso que carrego é uma arma sim, mas ta bem camuflada, também odeio quando colocam pedras de gelo na minha bebida tira o sabor. Que ótimo, perdi os dois de vista.
A noite continua ativa assim como os dois, seus passos cambaleados e sorrisos estridentes se envolvem com a escuridão de um beco escuro qualquer, uma valsa sem ritmo em meio as sombras e luzes distantes dos postes da rua. Ellen sabe o que quer, o sorriso de Arthur pode ser mais atraente no escuro. Mulheres independentes não procuram se prender a sentimentos e nem a pessoas, ela não poderia imaginar se sentir tão atraída, então, não poderia deixa-lo escapar. A noite fora maravilhosa, para ambos, mesmo ainda não tendo terminado. Arthur fechava os olhos e sorria para Ellen, encantado, ela por sua vez deitava sob seu peito e os dois olhavam as estrelas perto do lago da cidade, a música da boate e toda a luz e agitação ficaram apenas como paisagem de fundo. De todas as noites, todas as pessoas, todas as sensações, ele fora a melhor que já experimentou.
Mas algo no fundo de seus olhos o tornara completamente vazio e estranho, percebendo isso já era tarde demais. Seu sorriso já não era mais o mesmo, Ellen quis fugir, se levantar e correr, mas o sorriso dele não a permitiu, ela estava estasiada e não conseguia se mover, sua pele aos poucos fora ficando mais clara e suas veias azuis sobressalentes se tornaram assustadoramente mais visíveis, o seu olhar era agora algo assombroso, e com suas unhas enormes ele segurou o coração de Ellen com um único golpe. Ela ainda o assistiu a observando enquanto sua vida se esvaia diante de seus olhos estranhos e sorriso encantador. Arthur pulou na água, sua nova morada, desde que se tornara isso. Com seu prêmio nas mãos, algo que ofertaria ao demônio que o tocou. A noite guarda muitas coisas na escuridão, inclusive sobre a realidade em que você acredita viver. Quando a encontrei, sobre a ponte, Ellen era apenas mais um brinquedo quebrado. Quando eu o encontrar o próximo coração arrancado será o dele, e o sorriso o meu.
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