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domingo, 25 de agosto de 2013

Explicando os contos parte 1

"Mas no fim das contas eu sou apenas um desenhista que sabe de algumas coisas, coisas que muitos nem sonham que existam, coisas que destruiriam os mundos de pessoas comuns, coisas que me fazem perceber em como a ingenuidade é uma benção para os mais afortunados." - Augustus VII

Sobre o autor_

    Como dito na lateral do blog estes contos são o conjunto de histórias de minha autoria que fazem parte de uma série de contos que nomeei de sete. Gosto de contar histórias e fazer uma sequência de contos me pareceu uma forma bastante interessante de apresentar esse mundo e assim também como meus personagens. Pretendo inserir contos que também pertençam a outras séries de contos, mais futuramente.

Sobre os personagens_

   Nesses sete posts busquei apresentar a mitologia dessa história assim também como alguns dos personagens que fazem parte dela.
   A frágil Liah, no conto Sonhar é sua sina, que não pode acordar e ainda assim entende o que se passa em sua volta, sofre com terríveis visões, ainda que muitas vezes confusas, que acabam que por acontecer sempre. Incapacitada de se comunicar se sente frustada por ver como as pessoas irão morrer e não poder ajuda-las.
   O vigilante noturno Henrique Hiato (paladino), no conto Dia da caça, que busca os seres tocados pelo demônio (abissais). Esse termo é recorrente em meus contos para mostrar que de fato existem humanos com poderes demoníacos denominados tocados. Excêntrico ele quase que se diverte em procurar tais criaturas.
    Augustos VII que como Liah também tem o dom de prever o futuro (profeta) através de desenhos, no conto Apenas mais um desenhista. Nele mostra que a Igreja, não especificada, é responsável por unir esses humanos especiais, como a personagem Alice Corrigam que Augustus comenta, para se munirem em uma guerra oculta contra as forças das trevas. Esse conto é interessante por mostrar a primeira conexão entre os personagens e como essa guerra é sutilmente travada em cada um dos contos pelos personagens.
    Jordan, no conto Dance comigo esta noite, é o primeiro anti-herói mostrado. Deixando bem claro que se trata de um tocado pelo demônio (abissal) e como este lhe persegue e o manipula. A batalha que Jordan trava é mental e física, pois ele se vê como um vilão acatando as ordens do demônio para se tornar um assassino e seu desejo na meiga e linda Luna, onde ele vê nela a sua única chance de redenção ao mesmo tempo que se declara indigno.
    Em As estrelas nos observam também, uma mulher nos apresenta Gabriel sem deixar claro se ele é ou não um tocado ao mesmo tempo em que seu comportamento peculiar nos mostra que não se trata de um humano comum. Quem narra se mostra sentimentalmente envolvida por Gabriel por este ser diferente, ao mesmo tempo em que ela também não parece ser uma simples humana.
    A pequena Jennifer, no conto O céu com estrelas de sangue, se posiciona categoricamente como uma tocada pelos anjos (celestial) enquanto enfrenta um tocado pelo demônio (abissal), deixando assim mais evidente a batalha entre o bem e o mal descrita por Augustos em seu conto, Apenas mais um desenhista. Mostrando sua dificuldade em se tornar uma mulher e enfrentar problemas da vida adulta pondo em prática o que aprendeu quando ainda se vê como uma criança.
    Em O sétimo conto, resolvi conectar, ainda que de maneira simples, os demais contos, por ser de fato meu sétimo conto neste blog e toda a simbologia que esse número traz pra mim. Nele é nos apresentado mais um profeta dessa igreja, presa em uma sala com sete espelhos a pianista Moira não sabe ao certo quem é. O fato de prever o futuro de sete pessoas diferentes e como eles estão tão presentes e ativas em sua mente a faz pensar ser eles, para ela descobrindo quem são e os ajudando pode faze-la encontrar sua verdadeira identidade. Nesse conto Sami a vocalista de uma banda é citada pela segunda vez, a primeira foi em Dance comigo esta noite sendo a pessoa quem Jordan iria assassinar. As sete pessoas citadas por elas também são de certa forma especiais e somente nos próximos contos será mostrado o porquê. Moira é a terceira personagem apresentada com poderes de prever o futuro. Ela mostra que suas profecias não poderiam de maneira alguma ditar o futuro de alguém e que o destino de cada um é governado por ele mesmo.
                                                           
    Novos personagens serão apresentados daqui pra frente e novos contos serão adicionados dos personagens aqui citados. Pretendo escrever mais um artigo desse, a parte 2, para mais explicações sobre os personagens e a Guerra oculta entre as forças do bem e do mal dessa história, depois, claro, de apresentar novos contos.
   Espero que gostem da leitura e até breve.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O sétimo conto


    Aproximadamente 7,2 bilhões de pessoas vivem nesse planeta. Eu os enxergo como versos diferentes entre si, acordes misturados, formando uma melodia. Nessa melodia novos acordes são acrescentados formando assim toda a vida. Um conjunto de acordes e bilhões de melodias se formam na minha cabeça. Dedilhando e cantarolando eu consigo saber exatamente o que estão fazendo, o que irão fazer e como alguns, entre si, se mostram excepcionais.
    Como por exemplo a pobre garota que não pode acordar e assim como eu consegue enxergar o futuro das pessoas, um jovem guerreiro que busca incessantemente pessoas tocadas pelo demônio, os profetas da igreja um já cansado e a outra nova nesse mundo diferente, o tocado levado pela vingança que se nega a redenção, o anjo caído e o ceifeiro, os tocados pelos anjos que buscam o fim da guerra... Pessoas excepcionais, singulares e ainda assim conectados de uma certa forma. Como todas as outras pessoas do mundo.
    Um desenho me fez vir pra cá, assim como o desenhista que o fez, particularmente devido a uma das minhas melodias. De certa forma não sei dizer ao certo quem sou, o que sou, o que represento. Setes vidas correm por entre meus dedos, sete vidas estão conectadas a mim, eu os vejo, os sinto, eu sou eles e eles são eu. Por isso sou tão importante para essa igreja, por isso são tão importantes pra mim. Passeando por esse heptágono, olhando para esses espelhos eu vejo reflexos que não pertencem a mim. Quero poder ajuda-los, buscar seus sonhos, os satisfazerem, para poder saber quem sou e meu propósito nesse mundo. Um leque de novas possibilidades me aparecem e eu começo a compor uma nova canção. Minha sétima, meu novo conto. Acordes se fazem como vários fios de tecer misturados e espalhados,  todos por volta de mim, todos por mim e eu por eles.
    Estou cantando agora e busco uma carreira de sucesso, As Garotas Monstro é o nome da minha banda. Tenho uma filha e como policial busco apenas a justiça num mundo caótico para que no futuro ela possa viver em paz. Estou num manicômio porque tenho um distúrbio de comportamento alegada louca. Cicatrizes por todo meu corpo me privam de me socializar com outras pessoas por isso fico trancado. Estou numa cirurgia agora e sei que a vida do paciente está em minhas mãos. Na passarela todos me olham, todos me admiram, mas eu quero muito mais, eu quero o mundo. Tenho várias empresas, sou bem sucedido, influente e culto, porém busco apenas ajudar pessoas com o mesmo dom que eu. Eu sou a paciência, a castidade, a humildade, a diligência, a caridade, a temperança e a magnanimidade.
    Dizem que o destino é uma sucessão inevitável de acontecimentos relacionada a uma possível ordem cósmica, uma ordem natural que conduz a vida e portanto, não se pode escapar. Mas como escreveu Chico Xavier "teu destino está constantemente sob teu controle. Você escolhe, recolhe, elege, atrai, busca, expulsa, modifica tudo aquilo que te rodeia a existência". Sou levada a crer que o misto de acordes, as melodias e o que quer que eu componha nada pode controlar ou ditar o futuro de um ser. Seja ele comum ou extraordinário.
    Eles me chamam de Moira, creem que meu piano é minha roda da fortuna. Mas sou uma torcedora, uma observadora, olhando a vida dessas pessoas. Sete vidas correm por entre meus dedos e vou fazer o possível para ajuda-los a alcançar seus sonhos. Eu sou Moira a pianista, mas sou também Sami a cantora, Kimberly a policial, Sarah a louca, Boby o boxeador, Katerine a cirurgiã, Linda a modelo e Lance o empresário. Essa é minha sétima melodia, meu sétimo conto, essa sou eu e eu sou eles.

Musica da banda Switchfoot - Dare you to move veja Aqui.

domingo, 18 de agosto de 2013

O céu com estrelas de sangue

    Dizem que antes de você morrer toda sua vida passa diante de seus olhos. Eu nem pisquei. Sangue e lágrimas se misturavam e manchavam meu vestido claro, eu via o rapaz sendo dilacerado na minha frente mas todo o meu corpo ficara rígido naquele momento, imóvel, adormecido, senti que cairia de joelhos na frente da criatura como se fosse o prato principal, uma suculenta e apetitosa carne vermelha para saída, "Embrulhada pra viagem?".
    Pouco a pouco a criatura se alimentava com a maior ferocidade que eu nunca tinha visto em minha vida, partes do pobre rapaz eram atiradas por toda a parte enquanto jatos de sangue espirravam e marcavam todo o banheiro, as pias, os mictórios, o espelho e o azulejo azul celeste se tornaram um verdadeiro céu de estrelas de sangue. Eu sabia que era a próxima, sabia que o pobre rapaz era apenas a entrada naquele menu, mas ainda assim nem minhas pálpebras piscaram. Nem um único músculo se moveu e eu percebi que não passava de uma garotinha assustada.
    O relógio dos meus pensamentos começou a correr ao contrário. Eu vi meu pai me pegando no colo e me levando para escola, minha lancheira cor de rosa e minha mochila de rodinhas. Aquele seu óculos quadrados, seu beijo e o toque da sua barba na minha testa. Como eu era pequena naquela época. Eu senti o cheiro de torradas vindo da cozinha no domingo de manhã no meu decimo aniversário, o sorriso largo da minha mãe e seus longos brincos dourados. Eu senti em meus lábios o meu primeiro beijo no portão da minha casa naquela noite, a lua sorria, o clima era ótimo e o momento perfeito. Eu ouvi quando o carro dele se aproximava enquanto eu estudava para as provas do último ano na escola, sua blusa branca, cabelos loiros encaracolados, olhos azuis e sorriso bobo. Porque não consigo tirar a música A Thing About You da minha cabeça?
    Ângelo me ensinou como usar a dádiva que me foi concedida. Um toque celeste. O poder de tomar minhas próprias decisões. Poder proteger meus pais e enfim dar em troca todo o amor que eles me concederam em todos esses anos. Minhas preces e orações enfim tinham sido atendidas. O céu e o inferno fizeram sentido então. Me senti tão forte ao seu lado, tão capaz, me senti invencível. Ele me ensinou sobre tantas coisas e quando eu o olhava e via seus lábios se mexerem, mesmo não ouvindo som algum que ele pronunciava aquilo era música para os meus ouvidos. Ele me ensinou a ama-lo também, sem saber. Eu jurava estar preparada, jurava poder fazer algo, jurava poder vencer.
   Aqui estou eu agora. "Grande aluna, não Ângelo?". A criatura olhou pra mim guardando apenas o coração do rapaz e eu me lembrei em como ela era apenas a menina esquisita da classe. Não sobrara muita coisa da entrada e a sua gula não estava saciada. A cada passo que ela dava em minha direção meu coração acelerava, o pavor tomou conta da minha alma. Eu não conseguiria proteger ninguém, não iria  fazer diferença alguma, não venceria. Ela sairia e atacaria todos lá fora. Seriam sorrisos rasgados e diplomas ensanguentados. Seria tudo minha culpa. Morreria pensando em todos que não pude salvar. Ela entortou a cabeça lentamente para o lado, como um boneco de corda. Apreciando meu medo, degustando meu pânico. Ela sabia que eu era uma tocada também, por isso veio lentamente. Desculpe mamãe, desculpe papai e desculpe Ângelo. Eu ainda sou apenas a garotinha da lancheira cor de rosa. Ela pulou em minha direção. Fechei meus olhos por um instante.
   Aqueles seus dentes grandes e pontiagudos, os ossos enormes sobre a fina camada de pele, e meu grito. Eu quase cheguei a sentir seus dentes rasgando minha pele. Porém antes que ela conseguisse encostar em mim ele surgiu como um relâmpago, rápido, ágil e certeiro. Todo o seu braço era sua espada. E no fim o que veio em minha direção era apenas a cabeça da criatura enquanto seu corpo, pelo impacto, fora jogado na direção oposta. Ângelo, meu cavalheiro branco. Até quando você vai me salvar? Até quando serei a inútil e pequena Jennifer? Droga. A Thing About You de novo na minha mente! Ele me levou aos seus braços e eu tive que engolir meu choro para não parecer tão patética. Mas então ele me disse, "Parabéns". O anjo que o tocou sabia o que fazia. E quer saber? Pelo menos por hoje eu não me importaria em ser a princesa indefesa salva pelo príncipe encantado. Eu ainda farei a diferença, um dia serei a que ajuda, a que protege, a que salva e a amada.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

As estrelas nos observam também



    Os humanos são seres bem contraditórios, gritam por liberdade mas vivem presos, "ganham" a vida gastando-a em horas e horas no trabalho, clamam por amor mas o ignora quando o recebem e tentam a qualquer custo se encaixar em uma sociedade que insistem em julgar. As leis são dos homens, as regras, o estilo de vida, as etiquetas, todas elas são lei dos homens, ainda assim se não segui-las você será taxado de anti-social, inapropriado e até mesmo louco. As pessoas passam toda uma vida querendo se encaixar, colocando suas mascaras e saindo aos rissos em publico para se mostrarem normais porque, segundo eles, esse é o comportamento normal, seria loucura não ser como eles. Vejo o mesmo rosto, mesmas vozes e os mesmos gostos por onde quer que eu ande e isso é tão entediante.
    Meu vizinho, Gabriel, é diferente, nunca conseguiu se encaixar, acho que nem tenta na verdade. Sua história é bem trágica. Foi adotado quando criança, tinha uma nova família que o amava e não conseguia demonstrar o mesmo, tinha dinheiro mas não gastava, acho que nem se divertia. Ele passa boa parte da noite observando as estrelas e uma vez o vi querendo alcança-las com sua mão. Quando adolescente sofreu um horrível acidente de carro onde perdeu a mãe adotiva. Quando o vi no hospital, o achei tão diferente das pessoas comuns, uma espécie de luz o cercava, seu rosto sempre fora de tranquilidade. Mesmo depois de saber da morte de sua mãe. Me senti intrigada com sua expressão, o modo que ignorava as coisas que não lhe importava, a simplicidade de seus atos e ainda assim não indiferente com seus parentes. Um sujeito deveras intrigante. Levei leite e pão e me sentei ao seu lado, no seu leito de hospital naquela ocasião. Sua expressão não foi de espanto, ele apenas me agradeceu e sorriu. Me pegou de jeito, eu que adorava testar a reação dessas pessoas me peguei sem reação alguma. 
    Passamos a nos conhecer mais, ele ria das minhas roupas e eu ria dos machucados que fazia nele por ter rido de minhas roubas. Pescamos e descobrimos que não sabemos pescar, dançamos e ainda assim não somos bons nisso. Gosto de colecionar fotos, imagens, rostos, lugares, o comportamento dessas pessoas e quando o levei para meu quarto e ele viu todas aquelas fotos nas paredes achou fascinante. Eu o acho fascinante. E o que ele viu de diferente em mim o atraiu também. Mas nem tudo é flores. Eu posso observa-lo sempre que quiser e ele não percebe. Sei de alguns de seus segredos. 
    Percebi que não tinha nenhum machucado sério quando nos conhecemos no hospital, ele nunca se fere, nunca sente dor, tem dificuldade em entender afeições,  e o mais assustador foi numa noite de chuva quando ele encurralou um homem no beco. Não sei quem era ou do que se tratava, mas, esse homem lhe deu cinco tiros a queima roupa e nada aconteceu, Gabriel continuou andando em sua direção e quando terminou o homem de aproximadamente trinta anos estava morto, e parecia ter o dobro da sua idade. Ele possui tatuagens assustadoras pelo corpo, um anjo, um velho, uma lula, um rei, uma estátua de ouro, uma mulher com cabeça de cabra e a cabeça de um bode vedado. Não sei o que isso significa mas suspeito o que ele possa ser.
    As pessoas tentam mais que tudo se conectar, para não se sentirem excluídas, ou sozinhas. A solidão é o pior castigo que se possa ter. Por isso as mascaras, por isso tentam a todo custo se encaixar. Até mesmo eu busquei em Gabriel uma conexão e isso só deu certo porque somos diferentes. Diferente como eu, somos dois desconhecidos numa terra hostil. Dois aliens que não se encaixam. Que caixinha de surpresa é essa vida que tanto falam. Quando o vejo querendo alcançar as estrelas eu sei que se sente como se esse não fosse o seu lugar. Ele está certo. Não somos parecidos mas também não sou daqui, fui enviada para busca-lo, leva-lo para seu lugar. Isso me deixa triste porque antes quero vê-lo alcançar as estrelas. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Dance comigo esta noite

    Luna, ela está tão triste esta noite e como não poderia? Quando olho pra ela poderia falar sobre todas as sensações que me acontecem. Ela é a pessoa mais linda do mundo, mais delicada e mais gentil que você possa imaginar. Um anjo, certamente um anjo. As amigas dela me olham com aquela cara de desaprovação, não poderiam estar mais certas. Nessa festa deveríamos vir juntos, pra todos saberem que estamos juntos, que eu sou completamente dela e que nunca senti algo tão forte e bom quanto o que sinto. Mas estou aqui de olho em outra garota. A garota da banda, Sami a vocalista. Elas estão se apresentando na festa de aniversário de um garoto da escola, As Garotas Monstro, o nome da banda, elas nem fazem ideia quem é o monstro aqui. As trocas de olhares são inevitáveis, Luna é perfeita e eu não sou exatamente o garoto mais bonito do ensino médio, um cara bem comum na verdade, mentira, minha vida não tem nada de comum.
    Me lembro daquela tarde fria, moro no sul e é bem frio aqui no inverno apesar de estarmos num país tropical. Eu estava voltando da escola, só faltava um quarteirão para chegar em casa, eu tinha esse desenho que havia feito, eu, meu pai e minha mãe. Eu era um garotinho muito esperto, mas ao chegar num beco, o que eu vi, aquilo mudou o resto da minha vida completamente. Tinha sangue, tristeza, dor, dois corpos estirados no chão, eram meus pais. O assassino estava lá também, com uma faca ensanguentada, ele olhou pra mim e pediu para que eu ficasse em silêncio. Nunca pude esquecer aquela tarde, aquilo faz parte de mim, me tornou quem eu sou hoje. Fui arrastado, tragado para as trevas e vou continuar meu caminho tortuoso porque já fiquei calado por muito tempo. Meus tios cuidaram de mim e de meu irmão mais novo desde então. Acho que eles sabem que sou diferente, estranho. Eu vejo coisas que as pessoas morreriam se vissem. Um demônio com um doce e inocente rosto me acompanha desde então, nas minhas costas, nas sombras, ele vê tudo o que faço, ele sussurra pra mim e na hora de dormir eu tenho horríveis pesadelos.
    Noite passada um cara veio me assaltar, o pobre coitado entrou em combustão ao se aproximar de mim. E o que eu poderia fazer? O cheiro da carne queimada dele não saiu do meu nariz, enquanto eu olhava apavorado ele correndo e gritando. As pessoas em volta ficaram assustadas, e detrás de mim eu via essa doce garotinha dando gargalhadas. Eu sabia que o demônio me acompanhava pra onde quer que eu fosse, que de certa forma me protegia, cuidava de mim. Eu sei que fui amaldiçoado naquele dia. Eu só queria ver aquele assassino morrer lenta e dolorosamente.
    Meu nome é Jordan. Eu sou o ódio, a vingança e o rancor. Por isso Luna não poderia ficar contigo, não poderia te arrastar para o abismo comigo, não poderia deixar esse demônio brincar com você também. Como eu poderia escapar disso? A quem pediria ajuda? Será que Deus existe? Ele me ajudaria? Será? No momento eu não posso fazer mais nada a não ser me entregar para esse meu companheiro das trevas. Ele me convidou para essa valsa sangrenta. Pude ate ouvir suas gargalhadas quando resolvi escutar o que me sussurrou. Minha cama esta feita, com lençóis vermelhos e travesseiros de pluma. Eu tenho minha parte do inferno e esta noite eu entregarei o coração de Sami para o demônio. Por que eu sinto que no fundo me tornei um demônio também. Quando eu olho pra ela eu penso que não poderia existir alguém mais linda. Sinto muito Luna, mas um anjo não combina com um demônio.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Apenas um desenhista


    A ingenuidade do ser humano é subestimada, nós vivemos os nossos dias tão ocupados e atarefados que não nos damos conta do que realmente acontece a nossa volta, que há algo muito errado com todas essas notícias horríveis na televisão, com todo esse medo, de não saber bem quem seu vizinho possa ser, se vai chegar e sair bem todas as vezes que levanta pela manhã ao ir para o trabalho, e a ironia de que para se sentirem cada vez mais seguros em seus lares estão na verdade atrás de grades, e cada veis mais sozinhos. A globalização e a internet deixam as pessoas mais conectadas e cada vez mais afastadas, e os dias passam cada vez mais rápidos, silenciosos e sorrateiros, as pessoas nem percebem.
    Eu desenhei hoje uma linda jovem, seu nome é Alice Corrigan, ela mora fora, no exterior, em uma cidade da Califórnia, Estados Unidos da América e mandei um dos nossos melhores homens para busca-la, Alexander Weidder, o número sete, esse trabalho é muito importante e essa moça também. Mas eu sou apenas um mero desenhista, nada mais, não comando nada e meu poder aqui dentro dessa igreja é tão banal quanto a ingenuidade que eu superestimo. Meus desenhos não são meus de verdade, as pessoas que neles aparecem, as pessoas que deles saem existem de fato, eu estou em uma igreja agora, afastado do mundo e de todos para não perder minha inspiração que deve vir de algum lugar sagrado que a mim não foi confiado. E enquanto isso eu passo meus dias a pensar em como seria bom não saber de nada, em viver meus dias atarefados e com medo como todas as pessoas do resto do mundo. Em ser apenas mais um, não um escolhido, apenas mais um.
    Fico me perguntando como a pobre garota irá reagir depois de descobrir que seu mundinho perfeito não existe como ela imaginava, que está sendo travada uma batalha constante entre as forças do bem e do mal, como em meu primeiro desenho a quase vinte e nove anos atrás, onde pontilhei dois velhos barbados, gêmeos, jogando xadrez, um com vestes brancas e o outro com vestes negras. Se a igreja não soubesse do que se tratava, se eu não tivesse sido trago, era bem provável que seria ainda como as pessoas ingenuas que tanto invejo. Será um choque para ela saber que existem mais criaturas na Terra do que imaginamos, que o inferno somos nós, que estamos perto do fim e que somos meras peças em um jogo que está além da nossa compreensão. Preso em minhas memórias nem me apercebi de um desenho que estava terminando. Quem diria, sou eu nele. Será um alerta para cessar com as queixas ou um aviso de que Deus está comigo? Mas no fim das contas eu sou apenas um desenhista que sabe de algumas coisas, coisas que muitos nem sonham que existam, coisas que destruiriam os mundos de pessoas comuns, coisas que me fazem perceber em como a ingenuidade é uma benção para os mais afortunados.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Dia da caça

    A noite é uma criança e se você não tomar cuidado vai se tornar apenas mais um brinquedo quebrado em suas mãos. As pessoas buscam abraços, sorrisos, diversão, drinkes, sexo. Buscam fugir da realidade e se libertar da prisão do dia-a-dia, e quase sempre elas conseguem, as vezes elas também conseguem mais, bem mais que isso e aposto que se arrependem disso. Meu nome é Henrique Hiato, sim esse sobrenome existe. As pessoas inundam a noite tão excitadas e cheias de vontade que se esquecem que abaixo de seus narizes a cidade respira, vigia e se move
    Ellen é uma mulher que sabe o que quer, quando ela sai a noite ela sabe exatamente o que busca, uma presa, alguém para poder brincar, dançar, se embriagar, seduzir e descartar. Arthur foi em direção ao olhar de Ellen se achando o caçador, mal sabe que hoje é o dia da caça. Ele passa sua mão pelas costas nuas dela, trocam sorrisos, olhares e caricias e depois da terceira bebida já se tratavam como conhecidos. Eu odeio essas luzes de boate, se não fosse meu uísque não aguentaria ficar por mais tempo, o segurança me olhou de um jeito suspeito, isso que carrego é uma arma sim, mas ta bem camuflada, também odeio quando colocam pedras de gelo na minha bebida tira o sabor. Que ótimo, perdi os dois de vista.
    A noite continua ativa assim como os dois, seus passos cambaleados e sorrisos estridentes se envolvem com a escuridão de um beco escuro qualquer, uma valsa sem ritmo em meio as sombras e luzes distantes dos postes da rua. Ellen sabe o que quer, o sorriso de Arthur pode ser mais atraente no escuro. Mulheres independentes não procuram se prender a sentimentos e nem a pessoas, ela não poderia imaginar se sentir tão atraída, então, não poderia deixa-lo escapar. A noite fora maravilhosa, para ambos, mesmo ainda não tendo terminado. Arthur fechava os olhos e sorria para Ellen, encantado, ela por sua vez deitava sob seu peito e os dois olhavam as estrelas perto do lago da cidade, a música da boate e toda a luz e agitação ficaram apenas como paisagem de fundo. De todas as noites, todas as pessoas, todas as sensações, ele fora a melhor que já experimentou.
     Mas algo no fundo de seus olhos o tornara completamente vazio e estranho, percebendo isso já era tarde demais. Seu sorriso já não era mais o mesmo, Ellen quis fugir, se levantar e correr, mas o sorriso dele não a permitiu, ela estava estasiada e não conseguia se mover, sua pele aos poucos fora ficando mais clara e suas veias azuis sobressalentes se tornaram assustadoramente mais visíveis, o seu olhar era agora algo assombroso, e com suas unhas enormes ele segurou o coração de Ellen com um único golpe. Ela ainda o assistiu a observando enquanto sua vida se esvaia diante de seus olhos estranhos e sorriso encantador. Arthur pulou na água, sua nova morada, desde que se tornara isso. Com seu prêmio nas mãos, algo que ofertaria ao demônio que o tocou. A noite guarda muitas coisas na escuridão, inclusive sobre a realidade em que você acredita viver. Quando a encontrei, sobre a ponte, Ellen era apenas mais um brinquedo quebrado. Quando eu o encontrar o próximo coração arrancado será o dele, e o sorriso o meu.


domingo, 11 de agosto de 2013

Sonhar é sua sina

   Os sonhos nos levam para os lugares mais distantes, realizam desejos, nos mantém confortáveis, descansados, calmos e felizes. Muitas pessoas esperam ansiosos para quando enfim chega a noite e assim podem viajar por entre seus lençóis e travesseiros. Mas existe uma garota, entre todas as outras, que deseja mais que tudo, apenas acordar.
   No seu mundo de sonhos nunca se pode dizer o que é real, o que é mentira, não existe o botão de desligar como antes, velhas amigas como a Ritalina e Modafinil já se tornaram obsoletas e para ela só lhe resta apenas esperar a chave para o sono eterno, infelizmente esta é sua triste verdade. Sonhar é sua sina.
   Era mais um dia claro e quente. É possível se beneficiar de algumas sensações e como isso pode afetar o que se passa na mente dela. Como por exemplo, o misterioso homem de chapéu engraçado estava perseguindo a senhorita Melissa por três noites consecutivas, ninguém sabe mas ele é um maniaco, desde que a vira no bar ele não a tira da cabeça. Em uma certa vez a senhorita Melissa deixou cair seu lenço em uma de suas apresentações, e desde então ele o carrega. Já estava ficando tudo confuso na quarta noite de perseguição mas depois que a luz do sol iluminou seu quarto, mais que os dias convencionais, ficou tudo mais claro para ela. O misterioso homem do chapéu engraçado queria fazer com Melissa de graça, o que ela cobra pra fazer, porém contra sua vontade.
    Sua mãe havia mudado o alvejante da sua roupa, ou o sabão em pó, não importa, porém como o novo cheiro lhe agrava bastante a garota conseguira decifrar o que lhe deixara encucada durante a última semana, era o odor de sangue que sentia, aquele líquido viscoso descendo pela porta da casa de número sete da rua, o cheiro forte da chuva lhe atrapalhara na hora de distinguir os odores. E quando uma moto, provavelmente velha, fizera aquele barulho horrível na madrugada foi possível entender enfim o que era aquela luz no meio da escuridão, que quebrara a janela. O barulho era bem parecido, mas como estava escuro não conseguia perceber que se tratava de um revolver, aqueles de cano curto. Ela lembrou também que alguém lhe segurara para lhe injetar uma agulha no braço, não poderia ser sua mãe, era a mão de um homem, provavelmente um técnico de enfermagem contratado, esse novo remédio doía um pouco, sentia que lhe queimava um pouco a veia, mas sem ele ela nunca teria descoberto que foi algo muito quente que havia feito uma cicatriz na mão daquele homem e a dor que sentiu na hora.
    Os sonhos de Liah não são tão felizes como os da maioria das pessoas, são todos bem confusos, ela não consegue definir o que é real e o que não é. Se ela pudesse ao menos se comunicar de alguma forma, mas isso não é possível. Como as adolescentes de sua idade ela queria apenas se divertir, poder correr, poder rir, poder comer comida de verdade e não líquidos através de um tubo. Seus sonhos não a deixava feliz, apenas a levava para lugares onde nunca estivera antes, a fazia ver coisas que não poderia, que não se lembrava mais, coisas que não via desde sua infância que as poucos se tornaram apenas dolorosas lembranças do que ela já não era mais capaz de fazer. Coisas que a deixava muito triste.
    O técnico de enfermagem jurara que havia limpado uma lagrima voluntária de Liah quando assistia ao jornal e falava com a mãe dela a respeito de um crime na cidade vizinha, Melissa, uma dançarina de boate, havia sido baleada dentro de sua residencia, o assassino havia invadido a casa e poderia ter havido resistência pois uma mancha de pele estava grudada no ferro de passar roupas da vítima jogado no chão perto de vários cacos de vidro da janela que dava para os fundos, o assassino fugiu deixando apenas um chapéu. Melissa conseguira se arrastar até a porta porém morreu logo depois, a polícia só a encontrou no meio da madrugada quando já chovia, quase cinco horas após o crime. Mal sabe ele que os sonhos de Liah sempre são tristes onde não se pode definir o que é real e o que não é. Liah queria poder se comunicar de alguma maneira, quem sabe assim as mortes em sua cabeça cessassem.