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terça-feira, 10 de setembro de 2013

O preço do pecado


    Estamos sempre em busca de algo que nos mantenha protegidos, em paz de espírito, um ponto de apoio, uma área de conforto. Estamos em busca de algo que nos livre de toda a carga de pecados, que nos permita deitar a noite com a consciência tranquila, em saber que fomos perdoados por nossos erros e que iremos para o céu. O café da manhã e a redenção nossa de cada dia, para que possamos ficar aliviados e poder pecar novamente. Mas acredite, um dia chegará sua hora e por mais que corra não poderá se safar do fardo de seus pecados.
    Os corredores parecem mais estreitos agora, Rita corre desesperada por eles tentando chegar à saída. É uma pena que esse prédio seja relativamente grande com tantos andares, tantas escadas e tantos corredores. No meio de um corredor escuro ela tropeça em seu próprio salto e cai. Sua respiração é grave, lenta, temerosa e ela não vê nenhuma saída próxima. Mas espere, logo a frente Rita consegue enxergar alguém, deve ser do pessoal da limpeza, ele pode ajuda-la, quem quer que esteja lhe perseguindo dentro do seu próprio local de trabalho não sabe que o zelador tem acesso à um rádio que lhe mantem sempre em comunicação com a segurança. Rita levanta aliviada, salva, seu desespero lhe dá lugar a uma sensação de esperança. Ela pode enfim respirar aliviada.
    Ela caminha o mais rápido que pode sem se importar com o salto quebrado. Seus pensamentos lhe preenchem a mente de esperança, em pensar que não corre mais perigo, em pensar que horas extras na semana lhe renderia tantos problemas. Rita alcança o rapaz da limpeza, e ao olhar para trás parece que seu perseguidor desistiu da caçada. O rapaz trabalhava esta noite sozinho e o perseguidor de Rita se aproveitara da troca de turno da segurança para entrar. Ela não conseguiu identifica-lo, ele possuía uma arma de cano serrado que brilhava com detalhes em ouro, possuía inscrições em outra língua. Grego? De qualquer forma não importava mais, o rapaz da limpeza e seu uniforme branco acalmara Rita, eles estavam seguros agora, fora do perigo.
    Passado o medo Rita levanta-se da cadeira deixando o cobertor posto em seus ombros cair lentamente, o café intacto estava quente e fumaçava, a luz da sala em que se trancaram começa a piscar e quando o zelador deu por si Rita já não era mais Rita. Ela finca suas garras no pescoço do rapaz e com a outra garra toma seu coração, arrancando-o de seu peito com muita facilidade. Seu uniforme branco mudava de cor enquanto a criatura lhe sugava o sangue e vísceras com aquela boca enorme. Em questão de minutos o rapaz estava completamente flácido, branco, atrofiado. O corpo de Rita mudava gradativamente para caber a janta, pelos lhe cobriam o corpo, pares de olhos redondos e negros tomavam lugar em seu rosto, seus braços e pernas alongavam-se e presas de tarantula saiam de dentro da sua enorme boca aberta enquanto babava algum tipo de ácido. Rita ponderou que o demônio que a transformou talvez não ficasse contente com apenas um coração, e a esta hora da noite não tendo muitas testemunhas ela poderia atacar também os seguranças.
     Olhando o vidro que formava a divisa da sala onde se escondera, refletindo a face da criatura monstruosa que se tornara, ela pôde lembrar o porquê de ter fugido tão apavorada e assustada . Os escritos em hebraico antigo, e não grego, contornava a arma de seu perseguidor. Ela mal ouviu o tiro que fragmentou toda a parede de vidro e lhe acertou em cheio a testa. Somente uma luz que parecia formar uma cruz, um aviso que chegara a hora de arcar com as consequências. Eram seus miolos que marcavam a sala agora, e enquanto seu corpo se transmutava para a forma original seu perseguidor Henrique Hiato tomou o coração do rapaz para si e pensou que talvez devesse entrega-lo pessoalmente para quem a enviou. E talvez, com sorte, ele consiga espalhar os miolos de um demônio. Porque mais cedo ou mais tarde a hora de pagar pelos pecados chega a todos.

Tradução: "Nos proteja do mal"